Desconsideração da personalidade jurídica: quando o sócio pode ser responsabilizado

17 de julho de 2025
Desconsideração da personalidade jurídica: quando o sócio pode ser responsabilizado
Direito Societário

Entenda quando é possível responsabilizar o sócio por dívidas da empresa por meio da desconsideração da personalidade jurídica, conforme o Código Civil e a jurisprudência atual.

Entenda quando é possível responsabilizar o sócio por dívidas da empresa por meio da desconsideração da personalidade jurídica, conforme o Código Civil e a jurisprudência atual.


A personalidade jurídica é um dos pilares do direito empresarial moderno. Ao constituir uma sociedade, os sócios se beneficiam da separação patrimonial entre seus bens pessoais e os da empresa. Contudo, essa proteção não é absoluta. Em determinadas situações, a lei permite "levantar o véu societário" e responsabilizar diretamente os sócios pelas obrigações da empresa – trata-se da desconsideração da personalidade jurídica.


Mas afinal, quando isso pode ocorrer? Quais são os requisitos legais para que um sócio seja responsabilizado por dívidas da empresa? É o que vamos esclarecer neste artigo.


O que é a desconsideração da personalidade jurídica?


A desconsideração da personalidade jurídica é uma medida excepcional, prevista no ordenamento jurídico brasileiro, que permite atingir o patrimônio dos sócios ou administradores quando a pessoa jurídica é utilizada de forma abusiva, com desvio de finalidade ou confusão patrimonial.


Essa figura jurídica está prevista no art. 50 do Código Civil, com redação dada pela Lei nº 13.874/2019 (Lei da Liberdade Econômica):


Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou indiretamente pelo abuso.


Fundamentos legais e evolução normativa

Com a entrada em vigor da Lei da Liberdade Econômica, a desconsideração da personalidade jurídica passou a exigir critérios mais objetivos e fundamentação clara, coibindo o uso indiscriminado desse instituto. O legislador buscou preservar o ambiente de negócios, dando maior segurança jurídica aos empreendedores, ao mesmo tempo em que manteve a possibilidade de punir eventuais abusos.


Além do Código Civil, a desconsideração está prevista em leis especiais, como o Código de Defesa do Consumidor (art. 28) e a Lei de Execuções Fiscais (art. 4º da Lei nº 6.830/1980), aplicando-se de forma subsidiária ou complementar conforme o caso.


Requisitos para a responsabilização do sócio


Para que a desconsideração seja aplicada, é preciso comprovar um dos seguintes requisitos:


  1. Desvio de finalidade: uso da pessoa jurídica para fins diversos daqueles para os quais foi constituída, especialmente com intuito de fraude, prejuízo a credores ou prática de atos ilícitos.
  2. Confusão patrimonial: ausência de separação entre os bens da empresa e os bens dos sócios, como por exemplo:


  • movimentação financeira conjunta sem critérios;
  • utilização dos bens da empresa para fins particulares;
  • ausência de contabilidade regular.


Além disso, é necessário comprovar o benefício direto ou indireto do sócio ou administrador com o ato abusivo, conforme exigido pela redação atual do art. 50 do Código Civil.


Jurisprudência atual e posicionamento dos tribunais


Os tribunais têm adotado postura cautelosa na aplicação da desconsideração. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem reiterado que a simples inadimplência da empresa não justifica, por si só, a responsabilização dos sócios.


No julgamento do REsp 1.775.269/SP, o STJ reafirmou que:


“A desconsideração da personalidade jurídica exige demonstração inequívoca de abuso de direito, desvio de finalidade ou confusão patrimonial, sendo insuficiente a mera inexistência de bens em nome da empresa.”


Isso demonstra a importância de fundamentar adequadamente o pedido de desconsideração, sob pena de indeferimento.


Procedimento: como a desconsideração é aplicada


O Código de Processo Civil de 2015 trouxe regras claras sobre o procedimento para a desconsideração da personalidade jurídica, nos artigos 133 a 137, que estabelecem:


  • Necessidade de pedido específico, com indicação dos fundamentos legais e provas do abuso;


  • Garantia do contraditório e do direito de defesa ao sócio ou administrador antes da aplicação da medida;


  • Possibilidade de aplicação de ofício pelo juiz, quando presentes os requisitos legais.


Essas normas visam proteger o devido processo legal, evitando decisões arbitrárias.


Como prevenir a responsabilização pessoal do sócio

Para evitar que o patrimônio pessoal seja atingido, os sócios devem:


  • Manter rigorosa separação patrimonial entre empresa e pessoa física;
  • Documentar todas as transações com clareza e respaldo contábil;
  • Evitar transferências de bens ou recursos sem respaldo contratual;
  • Atuar com boa-fé, transparência e diligência na gestão empresarial.


Em caso de dúvidas, consultar um advogado especializado é sempre a melhor decisão para prevenir riscos jurídicos.


Se você busca assessoria jurídica especializada para proteger sua atuação como sócio ou administrador e evitar riscos de responsabilização pessoal, converse com a nossa equipe Fortes, Villa Real & Santos Advogados..


Conclusão

A desconsideração da personalidade jurídica é um instrumento necessário para coibir fraudes, mas deve ser aplicada com responsabilidade e dentro dos limites legais. O sócio só será responsabilizado quando houver provas concretas de abuso e violação da separação patrimonial, não bastando o simples inadimplemento empresarial.


Entender esse instituto é fundamental para quem empreende ou atua na gestão de empresas. Em um cenário de crescente judicialização, estar bem assessorado juridicamente pode ser o diferencial entre proteger ou comprometer o patrimônio pessoal.


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