Propriedade Intelectual no Contexto Digital: Desafios no Registro de Marcas e Regulação da Inteligência Artificial

17 de julho de 2025
Propriedade Intelectual no Contexto Digital: Desafios no Registro de Marcas e Regulação da Inteligência Artificial
Direito Societário

A proteção da propriedade intelectual no digital exige estratégias inovadoras contra violações de marcas e adequação das normas às criações por inteligência artificial. Tecnologias de proteção e revisão legal são essenciais para garantir inovação sem prejudicar direitos de criadores e inventores no mercado digital.

propriedade intelectual abrange um conjunto de direitos conferidos a indivíduos ou empresas pela criação de obras, invenções, marcas e outros elementos intangíveis que constituem valor econômico. No cenário digital atual, as empresas enfrentam desafios substanciais para proteger suas marcas e invenções, especialmente devido ao rápido avanço tecnológico e ao crescimento das plataformas digitais. Este artigo abordará dois aspectos críticos dessa proteção: os desafios e estratégias no registro de marcas no ambiente digital e a regulação da inteligência artificial (IA) no âmbito de patentes e direitos autorais.


Registro de Marcas: Principais Desafios e Estratégias de Proteção no Mercado Digital

registro de marcas é um dos pilares fundamentais para garantir a exclusividade de uso e a proteção contra o uso indevido por terceiros. No entanto, com a expansão dos negócios para o ambiente digital, novos desafios surgem para as empresas, exigindo uma abordagem mais estratégica e abrangente.


1. Principais Desafios no Ambiente Digital

No contexto digital, as empresas enfrentam um número crescente de ameaças à integridade de suas marcas. Os principais desafios incluem:


– Falsificação e Pirataria: Plataformas de comércio eletrônico e redes sociais facilitam a venda de produtos falsificados, o que prejudica a reputação e os lucros das marcas legítimas. As empresas enfrentam dificuldades em monitorar o vasto ecossistema digital e identificar rapidamente infratores.


– Cybersquatting: O registro indevido de domínios contendo nomes de marcas registradas, com a intenção de revendê-los ou desviar consumidores, é uma prática comum no ambiente digital, complicando o controle de uso das marcas.


– Concorrência Desleal: A digitalização acelerada permite que empresas rivais utilizem termos e palavras-chave associadas a marcas de terceiros para atrair clientes em mecanismos de busca, aumentando a complexidade da fiscalização de uso indevido de marcas.


– Expansão Internacional: A natureza global do mercado digital exige que as empresas considerem a proteção de suas marcas em múltiplos territórios. Contudo, as diferenças nos regimes legais de propriedade intelectual em cada país dificultam a uniformidade na aplicação de direitos de marca.


2. Estratégias de Proteção

Para mitigar esses desafios, as empresas podem adotar estratégias de proteção mais robustas e proativas:


– Monitoramento Contínuo: O uso de ferramentas tecnológicas, como algoritmos de inteligência artificial, pode ser eficaz para o monitoramento contínuo do uso de marcas em plataformas digitais, identificando infrações em tempo real.


– Registro de Marcas Multijurisdicional: O registro de marcas em diferentes países, por meio de tratados internacionais como o Protocolo de Madri, permite uma proteção mais ampla e eficiente em várias jurisdições. Isso se torna essencial para empresas que atuam em mercados globais.


– Defesa Ativa Contra Infratores: Empresas devem adotar uma postura ativa de combate às infrações, como o envio de notificações extrajudiciais, pedidos de remoção em plataformas digitais e, quando necessário, a adoção de medidas judiciais rigorosas para responsabilização dos infratores.


– Políticas de Cooperação com Plataformas: A colaboração com plataformas digitais e redes sociais para a remoção ágil de conteúdos ou produtos piratas pode acelerar o combate à falsificação. Além disso, programas de proteção de marcas, como o Amazon Brand Registry, oferecem suporte para empresas que desejam proteger seus produtos no comércio eletrônico.


A Regulação da Inteligência Artificial: Patentes e Direitos Autorais

O desenvolvimento da inteligência artificial (IA) trouxe à tona questões complexas no campo da propriedade intelectual, especialmente em relação à titularidade de criações geradas por essas tecnologias. A IA é capaz de produzir invenções, obras artísticas e conteúdos originais, o que desafia as normas tradicionais de patentes e direitos autorais.


1. Patentes e Inteligência Artificial

A concessão de patentes envolve o reconhecimento de uma invenção nova, inventiva e útil, tradicionalmente atribuída a seres humanos. Entretanto, à medida que sistemas de IA se tornam capazes de criar novas invenções sem a intervenção humana direta, surge a questão: quem deve ser considerado o inventor em tais casos?.


Atualmente, a maioria dos sistemas jurídicos não reconhece a IA como inventora. Por exemplo:


– Nos Estados Unidos, a legislação de patentes exige que o inventor seja uma pessoa física.


– No Brasil, a Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/96) também estipula que o inventor deve ser uma pessoa natural, o que exclui criações puramente autônomas de IA da titularidade de patentes.


Todavia, essa posição tem sido questionada por especialistas e casos notáveis, como o Projeto DABUS, um sistema de IA que gerou invenções atribuídas a si próprio. O caso foi discutido em diversas jurisdições, resultando em diferentes entendimentos. No Reino Unido e na União Europeia, as patentes foram negadas, enquanto a África do Sul concedeu uma patente à invenção criada pela IA.


2. Direitos Autorais e IA

No âmbito dos direitos autorais, os desafios são semelhantes. A produção artística gerada por IA, como músicas, pinturas e textos, levanta a questão da titularidade da obra. O direito autoral pressupõe a criação humana, pois requer elementos de originalidade e criatividade humana.


Diversos países, incluindo o Brasil, excluem a possibilidade de uma IA ser titular de direitos autorais. No entanto, o debate sobre a proteção de obras criadas por IA está em plena evolução. Há propostas para se considerar o programador ou o operador da IA como o titular dos direitos, já que, indiretamente, a criação depende de sua intervenção.


3. Propostas Regulatórias

Para lidar com os desafios trazidos pela IA, algumas propostas regulatórias vêm sendo sugeridas:


– Reconhecimento Legal de Criações por IA: Alguns defendem que o sistema de propriedade intelectual seja reformado para reconhecer a IA como inventora ou coautora em determinadas circunstâncias, assegurando direitos a seus criadores ou operadores.


– Modelos de Co-titularidade: Outra proposta é que as criações geradas por IA possam ser registradas com co-titularidade, onde tanto a IA quanto o programador ou usuário sejam reconhecidos como autores ou inventores, dependendo da natureza da criação.


– Adaptação das Regras de Originalidade e Criatividade: A modificação dos critérios legais para determinar a originalidade e criatividade das criações poderia considerar a capacidade da IA de produzir obras e invenções que não poderiam ser criadas por humanos, permitindo um sistema mais inclusivo.


Considerações Finais

A proteção da propriedade intelectual no mercado digital é desafiadora e exige que empresas e reguladores adotem estratégias dinâmicas e inovadoras. No caso das marcas, o ambiente digital amplia o risco de violações, exigindo o uso de tecnologias e políticas de proteção contínua. Por outro lado, o avanço da inteligência artificial pressiona por uma reformulação das normas que regem patentes e direitos autorais, à medida que as criações geradas por máquinas questionam o paradigma humano da criatividade.



A evolução dessas discussões será crucial para assegurar que as novas tecnologias continuem a promover inovação e criatividade, sem prejudicar os direitos de criadores e inventores no mundo digital.

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Advogado especialista por área jurídica, com atuação focada em soluções estratégicas, seguras e personalizadas aos clientes.

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